Resumo: O STF fechou a edição 1234 com quatro julgados que mexem com segurança jurídica e legalidade: concurso público e reestruturação de carreiras (ADI 3.159), expurgos inflacionários em depósitos judiciais (Tema 1.016), fim da competência trabalhista após o RJU (RE 590.880) e a inconstitucionalidade formal do FUNRURAL antes de 2018 (ADI 4.395). Leia a análise completa agora mesmo.
Caro leitor,
A edição 1234/2026 do Informativo de Jurisprudência do STF chegou com uma mensagem que interessa a todos que vivem do Direito.
São decisões do Plenário, todas girando em torno de um mesmo eixo: legalidade, segurança jurídica e o alcance do controle de constitucionalidade.
Quer o texto integral, com as teses completas, os fundamentos de cada voto e as referências normativas? Baixe o informativo oficial na íntegra: 👉 https://abre.ai/uEVw
E o que vem a seguir
Nas próximas linhas deste artigo, você encontra o comentário individual de cada julgado.
📌 Salve este artigo, compartilhe com quem está na luta do concurso e acompanhe o blog para não perder os próximos informativos.
PLENÁRIO
DIREITO ADMINISTRATIVO – SERVIDOR PÚBLICO – CARGO PÚBLICO – SISTEMA REMUNERATÓRIO E BENEFÍCIOS – PLANO DE CLASSIFICAÇÃO DE CARGOS (ADI 3.159/DF, relator Ministro Marco Aurélio, redator do acórdão Ministro Cristiano Zanin, julgamento finalizado em 15.10.2026)
Resumo: A controvérsia girava em torno da Lei nº 10.410/2002, que criou a Carreira de Especialista em Meio Ambiente a partir da reorganização dos cargos efetivos dos quadros do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama, e foi questionada sob o argumento de que a reorganização teria desrespeitado a exigência de concurso público, promovido transposição funcional indevida e gerado aumento de despesa com pessoal por força de emendas parlamentares apresentadas a projeto de iniciativa reservada ao Chefe do Executivo, sem a correspondente dotação orçamentária. O STF enfrentou o ponto com uma lógica de distribuição do ônus argumentativo que interessa a qualquer prova de controle de constitucionalidade: partindo da presunção de constitucionalidade das leis, o Tribunal assentou que a criação de cargos, a alteração da estrutura de carreiras e o aumento de despesas com pessoal dependem de dotação orçamentária suficiente e de autorização específica na lei de diretrizes orçamentárias (CF, arts. 37, II, e 169, § 1º), mas que a invalidação da norma exige demonstração objetiva de que a alteração parlamentar elevou os gastos originalmente previstos; não bastando alegações genéricas, já que aumento de despesa decorrente de emenda não se presume. Quanto à iniciativa reservada, fixou-se que ela não impede emendas parlamentares, desde que haja pertinência temática com a proposição original e não se crie despesa sem suporte orçamentário. No mérito, a lei foi salva porque preservou os níveis de escolaridade dos cargos transformados, impôs concurso público específico, exclusivamente de provas, para ingresso na carreira e condicionou a implementação ao cumprimento do art. 169, § 1º, da Constituição e das normas de responsabilidade fiscal. O Plenário, por maioria, conheceu da ação e, por unanimidade, julgou improcedente o pedido, declarando constitucionais os arts. 1º, 9º, 11 e 13 da Lei nº 10.410/2002, ficando prejudicado o pedido de declaração de inconstitucionalidade por arrastamento dos demais dispositivos.
DIREITO CONSTITUCIONAL – DEPÓSITOS JUDICIAIS – CORREÇÃO MONETÁRIA – EXPURGOS INFLACIONÁRIOS (RE 1.141.156/RJ (Tema 1.016 RG), relator Ministro Edson Fachin, redator do acórdão Ministro Flávio Dino, julgamento finalizado em 14.10.2026)
Teses fixadas: “1. O depósito judicial é figura processual de direito público, e a relação entre o depositante e a instituição depositária tem natureza estatutária, e não contratual. Dessa natureza estatutária decorre que não há direito adquirido a determinado índice ou padrão monetário e que não se estendem aos depósitos judiciais os critérios de correção reconhecidos às cadernetas de poupança em razão da natureza contratual destas. 2. A correção monetária dos depósitos judiciais é a prevista na legislação de regência vigente ao longo da custódia. Reconhecida a constitucionalidade dos planos econômicos na ADPF 165, e inexistindo direito constitucional à recomposição integral da inflação, é indevida a inclusão dos expurgos inflacionários na correção dos depósitos judiciais, e não cabe ao Poder Judiciário substituir o índice legal por outro que considere mais representativo da inflação do período. 3. Reafirma-se o contido no tema 881 da repercussão geral e o assentado na Questão de Ordem na AR 2.876, preservados os valores já levantados e as situações consolidadas”.
Resumo: O caso nasceu de depósitos judiciais feitos por empresa na Caixa Econômica Federal para suspender a exigibilidade de contribuição social, seguidos de pedido de inclusão dos expurgos inflacionários dos antigos planos econômicos na atualização desses valores - pedido negado pelo TRF da 2ª Região e depois acolhido pelo STJ, o que levou União e instituições financeiras ao Supremo. O Plenário, ao julgar o Tema 1.016, assentou que a correção monetária dos depósitos judiciais segue os índices da legislação de regência vigente ao longo do período de custódia, sendo indevida a inclusão de expurgos inflacionários, ressalvados os valores já levantados e as situações consolidadas. A fundamentação tem três pilares que valem decorar: primeiro, o depósito judicial é figura processual de direito público, e a relação entre depositante e instituição depositária tem natureza estatutária, não contratual - dessa premissa decorre a inexistência de direito adquirido a determinado índice ou padrão monetário e a inaplicabilidade aos depósitos judiciais dos critérios de correção reconhecidos às cadernetas de poupança, justamente porque nestas a natureza é contratual; segundo, reconhecida a constitucionalidade dos planos econômicos (ADPF 165) e inexistindo direito constitucional à recomposição integral da inflação, prevalecem os índices legais, em respeito à segurança jurídica; terceiro, não cabe ao Poder Judiciário substituir o índice legal por outro que considere mais representativo da inflação do período - o que reafirma o Tema 881 e a Questão de Ordem na AR 2.876. As teses fixadas, que são o que cai em prova, são exatamente essas três. A consequência prática foi o provimento dos recursos extraordinários para reformar o acórdão da Corte Especial do STJ e restabelecer o entendimento do TRF, aplicando-se o art. 7º, parágrafo único, do Decreto-Lei nº 1.737/1979, afastados os expurgos.
DIREITO CONSTITUCIONAL – PODER JUDICIÁRIO – INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA TRABALHISTA – REGIME JURÍDICO ÚNICO – INEXIGIBILIDADE DO TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL (RE 590.880/CE, relatora Ministra Ellen Gracie, redatora do acórdão Ministra Cármen Lúcia, julgamento finalizado em 15.10.2026)
Resumo: O caso discute o destino de um título executivo judicial formado na Justiça do Trabalho que garantia a servidores públicos federais o reajuste de 84,32% referente ao IPC de março de 1990 (Plano Collor), em execução que se prolongou após a instituição do Regime Jurídico Único pela Lei nº 8.112/1990. O STF enfrentou o problema em duas camadas temporais. Na primeira, quanto ao período posterior à vigência do RJU, assentou que a instituição do regime estatutário em cumprimento ao art. 39, caput, da Constituição de 1988 (redação original) extinguiu o vínculo celetista anteriormente mantido pelos servidores federais com a União, de modo que a transposição de regime cessou os contratos de trabalho e tornou inviável projetar efeitos de vantagens trabalhistas para momento posterior à mudança - não há direito adquirido a regime jurídico e a competência da Justiça do Trabalho é constitucionalmente limitada pelo art. 114. Daí a declaração de incompetência da Justiça do Trabalho para julgar e executar efeitos relativos ao período posterior à Lei nº 8.112/1990. Na segunda camada, quanto ao período anterior, embora reconhecida a competência da Justiça Especializada, a jurisprudência consolidada afasta o direito adquirido ao reajuste de 84,32% (Plano Collor) e veda o aumento de vencimentos de servidores pelo Judiciário com fundamento na isonomia (Súmula 339/STF). Sobre essa base, o Plenário validou a aplicação do art. 884, § 5º, da CLT - introduzido pela MP nº 2.180-35/2001 antes do trânsito em julgado da fase de conhecimento - para reconhecer a inexigibilidade do título executivo judicial fundado em interpretação incompatível com a Constituição, declarando a insubsistência da cobrança quanto ao período anterior. Em conclusão, por maioria, conheceu e deu provimento ao recurso extraordinário; e, por unanimidade, cancelou o Tema 106 da repercussão geral, por entender que a nova composição do Tribunal exige momento próprio para fixar tese de alcance geral, sem prejuízo da manutenção hígida da solução conferida ao caso concreto.
DIREITO TRIBUTÁRIO – CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS – FUNRURAL – PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA – REGRA MATRIZ DE INCIDÊNCIA – LEGALIDADE TRIBUTÁRIA – SUB-ROGAÇÃO (ADI 4.395/DF, relator Ministro Gilmar Mendes, redator do acórdão Ministro Dias Toffoli, julgamento finalizado em 15.10.2026)
Resumo: A ação questionava a cobrança da contribuição previdenciária do empregador rural pessoa física incidente sobre a receita bruta da comercialização de sua produção, na redação dada ao art. 25 da Lei nº 8.212/1991 pela Lei nº 10.256/2001, bem como a sub-rogação dessa obrigação aos adquirentes da produção. O STF acolheu a tese de inconstitucionalidade formal por violação da legalidade tributária, com uma fundamentação que é uma verdadeira aula de teoria da norma tributária: a Lei nº 10.256/2001 alterou apenas o caput do art. 25, deixando de disciplinar expressamente a base de cálculo, o fato gerador e a alíquota aplicáveis a essa categoria de contribuinte nos respectivos incisos - de modo que a regra matriz de incidência nasceu incompleta. E como os elementos quantitativos e materiais das redações anteriores (Leis nº 8.540/1992 e nº 9.528/1997) haviam sido declarados inconstitucionais pelo STF no julgamento do RE 363.852, tais dispositivos eram nulos desde a origem, tornando inviável aproveitar ou estender por analogia a regra matriz do segurado especial para suprir a omissão legislativa - sob pena de afronta ao art. 150, I, da CF. O Tribunal, contudo, reconheceu que essa inconstitucionalidade formal foi superada pela Lei nº 13.606/2018, que reestruturou integralmente o art. 25 a partir de 1º de janeiro de 2018, fixando alíquota expressa de 1,2% sobre a receita bruta e facultando ao produtor optar entre a contribuição sobre a comercialização ou sobre a folha de salários (opção irretratável no ano-calendário). A consequência foi a declaração de inconstitucionalidade do art. 25 (redação da Lei nº 10.256/2001) e, por decorrência lógica, do art. 30, IV, da Lei nº 8.212/1991 (sub-rogação dos adquirentes, consumidores, consignatários e cooperativas), ambos apenas quanto ao período anterior a 1º de janeiro de 2018. Por outro lado, o Tribunal reafirmou a constitucionalidade do art. 12, V e VII, que prevê o produtor rural pessoa física como contribuinte da seguridade social - ou seja, o vício é de técnica legislativa na instituição do tributo, não de competência para exigi-lo. Por fim, decidiu não modular os efeitos nesta oportunidade, aguardando eventual momento oportuno.
___________________
Referências:
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Informativo de Jurisprudência - Edição 1234. Disponível em < https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/informativoSTF/anexo/Informativo_PDF/Informativo_stf_1234.pdf >
___________________
#STF #Jurisprudência #Atualizacao #Direito #InformativoSTF #Advocacia #ExameOAB #ConcursoPublico #EstudanteDeDireito #BlogJuridico #VemProBlog #AnnaCavalcante