Resumo: Informativo 908 do STJ: o STJ reconheceu que prompt injection em peça recursal é ato atentatório à dignidade da Justiça, com multa pessoal aos advogados, e firmou que importunação sexual pode se configurar sem contato físico. A edição também define IPTU do proprietário registral, limita dano moral coletivo em improbidade, garante sensor de glicose em plano de saúde e a gratuidade da tradução em carta rogatória. Leia o artigo completo com a análise de cada julgado e mantenha-se atualizado.
Caro leitor,
A edição 908 do Informativo de Jurisprudência do STJ chegou e veio com uma daquelas combinações raras: um tema que vai dominar os próximos anos de audiências, uma tese penal que reabre o debate sobre consentimento e uma decisão que responsabiliza advogados por conduta digital.
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Porque aqui no blog, a proposta é simples e não muda: jurisprudência sem enrolação, com densidade técnica e olho no que cai na prova e no que decide o processo.
Até a próxima!
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Ação civil pública. Ministério Público. Atuação como fiscal da lei na segunda instância. Intimação. Dever legal. Ausência. Prejuízo a gerar nulidade. Justificação. Necessidade. (AREsp 3.044.883-MG, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, por maioria, julgado em 1º/9/2026)
Resumo: O STJ enfrentou a seguinte questão: o dever de intimar o Ministério Público como fiscal da ordem jurídica continua existindo quando ele já atua como parte na ação civil pública? No caso, o próprio MP ajuizou ACP e, em agravo de instrumento julgado pelo Tribunal, a Procuradoria-Geral de Justiça não foi intimada para emitir parecer - e o Parquet pediu a nulidade do acórdão. A Primeira Turma negou, mas com uma correção conceitual importante: o dever de intimação subsiste e se estende a todos os graus de jurisdição (arts. 127 e 129 da CF; arts. 178 e 179, I, do CPC), sendo o art. 5º, § 1º, da Lei n. 7.347/85 norma de extensão, não de exclusão - ele apenas torna obrigatória a intervenção quando o MP não é autor, sem dispensá-la quando ele é. O que o Tribunal afastou foi a consequência automática: como o processo brasileiro não admite nulidade sem prejuízo (art. 282, § 1º, do CPC), a falta de intimação do MP-parte não gera, por si só, invalidade, exigindo demonstração de prejuízo concreto à função protegida. Na prática, para advogados em ações coletivas, a nulidade por ausência de intimação do MP em 2º grau passa a exigir prova de prejuízo efetivo, com ônus de quem alega.
Injeção de comandos (prompt injection). Inserção, em peça recursal, de comando oculto dirigido a sistema de inteligência artificial. Ato atentatório à dignidade da justiça. Litigância de má-fé. Aplicação de multa pessoal aos advogados. (AREsp 3.095.458-SP, Rel. Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026)
Resumo: A Primeira Turma enfrentou uma das primeiras controvérsias processuais nascidas do uso de inteligência artificial no Judiciário: quais as consequências de inserir, oculta em uma peça recursal, comandos de prompt injection destinados a manipular o sistema de leitura automatizada do documento. No caso, a Secretaria de Processamento de Feitos do STJ certificou que a petição de recurso especial continha texto presente na camada digital do arquivo, mas ausente da renderização visual da página - com palavras deliberadamente fragmentadas por espaços indevidos ("e stão", "inexistê ncia", "dist inção") exatamente para impedir que buscas literais localizassem o conteúdo. O comando oculto buscava induzir o sistema generativo a afirmar a superação dos óbices de admissibilidade e a procedência do pleito. O STJ classificou a conduta como ato atentatório à dignidade da Justiça, nos termos do art. 77, IV e VI, do CPC, por violar os deveres de boa-fé, lealdade, cooperação e transparência (art. 5º do CPC), e aplicou multa processual a todos os advogados constituídos nos autos, independentemente de quem assinou digitalmente ou protocolou a peça - sem necessidade de apuração individualizada de autoria naquele momento, já que a elaboração e transmissão de peças é atividade privativa da advocacia (art. 1º, I, da Lei n. 8.906/94) e a responsabilidade pelo conteúdo recai sobre os procuradores, não sobre a parte. Determinou ainda ofício à OAB e ao MPF para apuração nas esferas administrativa e criminal, à semelhança do que já fizera a Sexta Turma em caso análogo, em que se cogitou de fraude processual. O impacto prático é direto e imediato: para advogados, a mensagem é que a responsabilidade pelo que se protocola não se delega à ferramenta - o uso de IA na rotina forense não transfere o dever de lealdade processual ao software, e a ausência de previsão legal específica não socorre o infrator, já que o art. 5º do CPC impõe padrão de comportamento plástico o suficiente para alcançar condutas que o legislador não antecipou.
Gratuidade de justiça. Ação de alimentos com carta rogatória para o exterior. Custos de tradutor juramentado e demais despesas para instrução da carta rogatória. Inclusão. (Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026)
Resumo: A Quarta Turma definiu se a gratuidade de justiça deferida a menor autor de ação de alimentos alcança as custas de tradução de documentos do português para língua estrangeira, necessárias à instrução de carta rogatória dirigida ao genitor residente no exterior. O STJ respondeu afirmativamente. A decisão parte do direito fundamental de acesso amplo à Justiça e assistência jurídica integral e gratuita (art. 5º, LXXIV, da CF), que impõe interpretação capaz de efetivamente viabilizar o ingresso e o prosseguimento da ação pelo hipossuficiente, sem tornar inviável a tutela de alimentos por impossibilidade econômica de arcar com despesas indispensáveis. O art. 98, § 1º, VI, do CPC/2015 - que prevê a remuneração do intérprete ou tradutor nomeado para apresentar versão em português de documento em língua estrangeira - tem redação exemplificativa, não restritiva, devendo ser lido sistematicamente com o caput e com o regime da gratuidade da prova pericial (art. 95, §§ 2º e 3º), sob pena de discriminação injustificada entre "traduções de entrada" e "traduções de saída" igualmente necessárias ao processo. A Corte invocou a jurisprudência consolidada do STJ e do STF de que, sendo sucumbente o beneficiário da gratuidade, o ônus dos honorários periciais recai sobre o Estado, entendimento estendido por equiparação normativa à remuneração de tradutores e intérpretes nomeados pelo juízo, reforçado pela Resolução CNJ n. 326/2020 (que altera a Resolução n. 127/2011) ao recomendar dotação orçamentária específica para essas verbas. No plano internacional, a Convenção de Nova York sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto n. 56.826/1965, art. IX), a Convenção da Haia e a Convenção Interamericana asseguram tratamento e isenções equivalentes aos residentes, vedando a cautio judicatum solvi.
DIREITO TRIBUTÁRIO
Execução fiscal. IPTU. Transferência da posse e dos direitos sobre o imóvel mediante instrumento particular. Ausência de registro do título translativo. Proprietário registral. Legitimidade passiva. Artigo 34 do CTN. Artigos 1.227 e 1.245 do Código Civil. Comunicação do negócio ao Município. Irrelevância para a transferência do domínio. (REsp 2.294.977-SC, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026)
Resumo: A Segunda Turma definiu se a transferência da posse e dos direitos sobre imóvel por instrumento particular, comunicada ao Município antes do fato gerador, exclui a legitimidade do proprietário registral para responder pelo IPTU. Na origem, execução fiscal de IPTU de 2002 e 2005 foi extinta por ilegitimidade passiva do proprietário registral, e o Tribunal local manteve o entendimento ao fundamento de que o negócio fora comunicado ao Município antes dos fatos geradores. O STJ reformou. O raciocínio parte do art. 34 do CTN, que admite mais de um sujeito passivo vinculado ao bem - proprietário, titular do domínio útil ou possuidor a qualquer título -, e do Tema 122/STJ, no qual a Primeira Seção firmou que tanto o promitente comprador possuidor quanto o proprietário ou promitente vendedor cujo nome permanece no registro podem responder pelo tributo, cabendo à legislação municipal eleger o sujeito passivo. A existência de possuidor apto a responder não exclui por si só a responsabilidade do proprietário registral, e a tese repetitiva não condiciona essa responsabilidade ao desconhecimento do negócio pelo fisco - a única exceção seria a lei municipal retirar a responsabilidade do titular registral, o que não ocorrera. A Corte reforçou o argumento com os arts. 1.227 e 1.245 do Código Civil: a propriedade imobiliária transmitida entre vivos só se adquire com o registro do título translativo, e enquanto não registrado o alienante continua havendo-se como proprietário; e com o art. 123 do CTN, segundo o qual convenções particulares sobre responsabilidade tributária não podem ser opostas à Fazenda Pública. A comunicação ao Município pode demonstrar a existência de terceiro possuidor e permitir sua eleição como sujeito passivo conforme a legislação local, mas não produz os efeitos do registro nem retira do titular registral sua condição jurídica de proprietário.
DIREITO ADMINISTRATIVO
Ação de improbidade administrativa. Alterações promovidas pela Lei n. 14.230/2021. Condenação por dano moral coletivo. Possibilidade. Prova da lesão extrapatrimonial grave e repercussão social qualificada. Necessidade. (REsp 2.209.648-RJ, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026)
Resumo: A Segunda Turma enfrentou a questão de saber se, após a Lei n. 14.230/2021, ainda cabe condenação por dano moral coletivo em ação de improbidade administrativa. O Tribunal de origem entendera que sim, de forma automática, a partir da prática do ato ímprobo. O STJ corrigiu o rumo sem, contudo, vedar a possibilidade. Partindo das ADIs 7156/DF e 7236/DF, nas quais o STF fixou que a ação de improbidade é repressiva e sancionatória, não podendo ser usada como substituta da ação civil pública, a Corte reconheceu a autonomia dos regimes: a improbidade não serve para veicular pretensão autônoma de tutela coletiva desvinculada da responsabilização pelo ato ímprobo - isso é papel da ACP -, mas isso não significa exclusão total da proteção ao patrimônio público nem proibição, em qualquer hipótese, do dano moral coletivo. A tese firmada é precisa: se a conduta, além de configurar improbidade e ensejar as sanções do art. 12 da LIA, transbordar a esfera individual ou meramente patrimonial da Administração e atingir de modo grave e intolerável valores transindividuais da coletividade, cabe o reconhecimento do dano moral coletivo na própria ação de improbidade, desde que demonstrada a efetiva lesão extrapatrimonial. O dano moral coletivo, portanto, não é in re ipsa - não decorre automaticamente do ato ímprobo, exigindo prova de lesão relevante, de gravidade concreta e de repercussão social qualificada, como abalo à confiança social na Administração. No caso concreto, envolvendo esquema de "rachadinha", a Turma afastou a indenização por ausência de elementos que demonstrassem repercussão social extraordinária - a gravidade do ilícito, embora suficiente para as sanções da LIA, não se confunde com o dano moral coletivo.
DIREITO NOTARIAL E REGISTRAL / DIREITO CIVIL
Ação de cancelamento e restabelecimento de registro imobiliário. Atos registrais. Presunção juris tantum de veracidade. Cadeia dominial. Princípios da fé pública e da continuidade registral. Nulidade não demonstrada. Decisão extra petita. Inocorrência. Sobreposição de matrículas. Anterioridade do registro. (REsp 2.189.786-TO, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026, DJEN de 26/10/2026)
Resumo: A Terceira Turma julgou caso de complexidade extrema, remontando à criação do Estado do Tocantins e às vicissitudes da abertura de matrículas no Registro de Imóveis de Palmas, em ação de cancelamento e restabelecimento de registros imobiliários. Duas questões estavam em discussão: se houve decisão extra petita ao se reconhecer a nulidade do título que embasava a pretensão da recorrente, e se estavam presentes os requisitos para invalidar o ato registral por suposto vício de origem na matrícula. O STJ negou provimento. A Corte partiu do art. 1.245 do Código Civil e dos princípios da fé pública e da continuidade registral: o registro é revestido de presunção relativa (juris tantum) de veracidade, e afastá-la exige prova robusta em contrário, sobretudo porque a nulidade de atos registrais tem efeitos drásticos sobre toda a cadeia dominial. O princípio da continuidade (art. 195 da LRP) exige apenas que as transmissões sucessivas mantenham encadeamento lógico e formal entre titulares. Em caso de sobreposição de matrículas - que gera distintas cadeias dominiais sobre o mesmo imóvel -, a Turma reafirmou a aplicação da prioridade registral: a prevalência do registro mais antigo, em confronto de cadeias hígidas, não viola o ônus da prova nem desconsidera a prova técnica, pois o critério jurídico de definição do domínio privilegia a anterioridade quando não há vício de origem na matrícula reputada preferencial. Sobre o extra petita, a Corte foi precisa: como a pretensão envolvia não apenas o cancelamento da matrícula A, mas também o restabelecimento das matrículas B, C e D, o exame da validade do título da recorrente era pressuposto lógico do pedido - não se pode analisar pedido de nulidade e restabelecimento sem enfrentar a cadeia dominial em sua integralidade.
DIREITO DO CONSUMIDOR
Plano de saúde. Tratamento para diabetes. Cobertura de sensor contínuo de glicose. Classificação pela ANVISA como produto para saúde ou dispositivo médico. Tratamento não elencado no rol da ANS. Cobertura excepcional. Observância dos parâmetros estabelecidos pelo STJ e STF. (REsp 2.263.523-SP, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026, DJEN 26/10/2026)
Resumo: A Terceira Turma decidiu se a operadora de plano de saúde é obrigada a custear o sensor contínuo de glicose (FreeStyle Libre 2) no tratamento de diabetes. O Tribunal de origem negara a cobertura com base no art. 10, VI, da Lei n. 9.656/98, que exclui medicamentos de uso domiciliar. O STJ reformou. O raciocínio central é de qualificação jurídica do produto: assim como o sistema de infusão contínua de insulina (bomba de insulina), o sensor contínuo de glicose é "produto para a saúde" ou "dispositivo médico", definido pela Anvisa nos termos da RDC n. 751/2022, e não pode ser classificado como medicamento de uso domiciliar ou órtese - razão pela qual não se enquadra nas exceções dos incisos VI e VII do art. 10 da Lei n. 9.656/98 e não há autorização legal expressa para sua exclusão. A Corte apoiou-se no Tema 1.316/STJ, em que a Segunda Seção firmou que o sistema de infusão contínua de insulina não se enquadra nessas exceções e são inválidas as cláusulas que excluam sua cobertura, e rechaçou a interpretação extensiva do conceito de medicamento para abarcar produtos com ele não se confundem, ainda que de uso domiciliar. Como se trata de tratamento não elencado no rol da ANS, o custeio deve seguir os parâmetros dos EREsps 1.886.929/SP e 1.889.704/SP, do art. 10, § 13, da Lei n. 9.656/98 (incluído pela Lei n. 14.454/2022) e da orientação do REsp 2.038.333/AM, observados ainda os requisitos fixados pelo STF na ADI 7.265/DF. A Turma mencionou ainda a Lei n. 15.439/2026, que trata dos direitos das pessoas com diabetes tipo 1 e, embora em vacatio legis, já revela a intenção do legislador de garantir acesso a insumos de monitoramento da glicemia.
DIREITO CIVIL
Ação de sonegados. Interesse processual. Ajuizamento antes do encerramento do inventário. Inequívoca resistência dos herdeiros à colação. Possibilidade. (REsp 2.296.199-SC, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026, DJEN 26/10/2026)
Resumo: A Terceira Turma definiu o marco temporal para o ajuizamento da ação de sonegados quando há resistência inequívoca dos herdeiros à colação de bens. No caso, o inventariante apontou que quinze imóveis teriam sido adquiridos com recursos do falecido e não foram colacionados pelas rés, suas filhas; o inventário fora proposto em 2012 e até então os bens não haviam sido arrolados. As rés alegaram ausência de interesse de agir, sustentando que a ação de sonegados só caberia após o encerramento do inventário ou após a declaração de inexistência de outros bens, com base nos arts. 621 do CPC e 1.996 do Código Civil. O STJ rejeitou a tese. A Corte distinguiu duas hipóteses conforme o polo passivo: contra o inventariante, a ação exige o encerramento da descrição de bens, o que ocorre com a declaração de que não há mais bens a inventariar - porque até lá ainda seria possível retificar a descrição; contra os demais herdeiros, a propositura pode se dar a qualquer momento, desde que já esteja evidenciado o intuito de desviar os bens tidos como sonegados, pois a sonegação não pressupõe interpelação, bastando a arguição, a omissão ou a resistência em apresentar os bens. No caso concreto, a contestação das rés consignou oposição expressa à juntada dos bens listados, demonstrando pretensão resistida e postura contraditória à possibilidade de retificação posterior - configurando o interesse processual. A Turma acrescentou que, nesse cenário, impõe-se privilegiar a instrumentalidade das formas e a primazia do mérito (art. 4º e art. 6º do CPC), sobretudo porque o mérito já havia sido julgado, confirmando a resistência inicialmente observada pelo juízo.
Condomínio edilício. Regimento interno. "Taxa geral de lazer". Cobrança exclusiva dos possuidores não proprietários. Deliberação assemblear. Controle judicial de legalidade. Possibilidade. Ausência de justificativa objetiva para o tratamento diferenciado. Princípio da isonomia. Ilegalidade. (REsp 1.890.939-MG, Rel. Ministro Luís Carlos Gambogi (Desembargador convocado do TJMG), Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 20/10/2026)
Resumo: A Quarta Turma julgou a validade de disposição de regimento interno, aprovada em assembleia, que instituiu a chamada "taxa geral de lazer", exigida exclusivamente dos possuidores não proprietários em razão de locação, cessão ou empréstimo da unidade. O STJ declarou a cobrança ilegal. O fundamento arranca do art. 1.339 do Código Civil: os direitos de cada condômino às partes comuns são inseparáveis de sua propriedade exclusiva, de modo que, ao alugar ou ceder a unidade, cede-se também o direito de uso das áreas comuns, devendo o locatário, cessionário ou comodatário ter os mesmos direitos de uso do proprietário. A Corte examinou cada figura: o locatário já paga as despesas ordinárias por força do art. 23, XII e § 1º, da Lei n. 8.245/91, incluídas expressamente as de "manutenção e conservação das instalações e equipamentos de uso comum destinados à prática de esportes e lazer" (art. 23, § 1º, alínea e); o cessionário é equiparado ao proprietário pelo art. 1.334, § 2º, do Código Civil para o rateio de despesas ordinárias e extraordinárias; e o comodatário não pode recobrar do comodante as despesas feitas com o uso da coisa (art. 584 do CC). O ponto decisivo é que o critério eleito pelo regimento não se vinculava à intensidade de uso das áreas comuns nem à geração de despesa adicional, mas à mera condição jurídica ou pessoal do ocupante - e, ainda que se reconheça a autonomia assemblear para disciplinar o uso das áreas comuns, não há fundamento objetivo apto a justificar contribuição adicional só para possuidores não proprietários, o que ofende o princípio da isonomia (art. 5º, caput, da CF). Na prática, para advogados, o julgado serve como precedente para questionar taxas diferenciais em condomínios e como alerta para síndicos e administradoras: cláusula regimental que cria contribuição por categoria de ocupante, sem nexo com despesa efetiva, é inválida mesmo aprovada em assembleia, sujeitando-se ao controle judicial de legalidade.
DIREITO PENAL
Importunação sexual. Ausência de contato físico. Verbalizações de cunho sexual. Possibilidade de configuração. Necessidade de exame do contexto fático. Trancamento da ação penal. Inviabilidade. (Processo em segredo de justiça, Rel. Ministra Nilsoni de Freitas, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 8/10/2026 e DJEN 13/10/2026)
Resumo: A Sexta Turma enfrentou a controvérsia sobre se a verbalização de cunho sexual, sem qualquer contato físico, pode configurar ato libidinoso apto a caracterizar o crime de importunação sexual (art. 215-A do Código Penal). No caso, o paciente, conduzindo veículo de madrugada, abordou adolescente de 15 anos que caminhava sozinha; o diálogo evoluiu para conteúdo sexual explícito e expressões de inequívoco teor libidinoso, de forma contínua e reiterada, até que a menor entrou em pânico e buscou socorro da polícia militar. A defesa pretendia o trancamento da ação penal sob o argumento de ausência de contato físico. O STJ negou. As duas teses fixadas são o coração do julgado: primeiro, a ausência de contato físico não exclui, de plano, a possibilidade de configuração do crime, devendo a avaliação ocorrer à luz do conjunto probatório e das circunstâncias do caso concreto; segundo, o conceito de ato libidinoso não é taxativo, podendo abranger condutas como verbalizações de cunho sexual, conforme o contexto e a intenção de satisfazer a lascívia. A Turma rechaçou leitura excessivamente estreita da elementar, por reduzir indevidamente o âmbito de incidência da norma e por ser insuficiente diante das múltiplas formas de exteriorização da violência sexual, sobretudo contra mulheres em situação de vulnerabilidade - recordando que já reconheceu como libidinosos toques de cunho sexual, beijos lascivos, contatos voluptuosos e até a contemplação lasciva. Na hipótese, a denúncia não descrevia palavras desconexas, mas contexto concreto que exigia apuração sobre a natureza dos atos, sua intensidade, reiteração e, sobretudo, o especial fim de agir - a intenção de satisfazer a própria lascívia.
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Referências:
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Informativo de Jurisprudências - Edição 908. Disponível em < https://processo.stj.jus.br/SCON/GetPDFINFJ?edicao=0908 >
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