Resumo: O STJ fechou a edição 907 com onze julgados de peso: ingresso domiciliar sem mandado e prova ilícita, estupro de vulnerável contra adulto incapaz de resistir, furto x estelionato na fraude do medidor de energia, competência da Justiça Federal nas bets do exterior e a legitimidade passiva do credor fiduciário na incorporação imobiliária. Leia a análise completa, julgado por julgado, no blog.
Caro leitor,
Saiu o Informativo de Jurisprudência n. 907 do Superior Tribunal de Justiça, e esta edição tem aquilo que mais interessa a quem vive de prova e de processo: tese fixada, divergência resolvida e ponto controvertido pacificado.
Em onze julgados, o STJ enfrentou temas que vão do ingresso domiciliar sem mandado em crime permanente, com o reconhecimento da ilicitude da prova obtida em busca sem fundadas razões, até a impossibilidade de desclassificar para importunação sexual o estupro de vulnerável praticado contra adulto incapaz de resistir. Passou também pela diferença dogmática entre furto mediante fraude e estelionato na adulteração de medidor de energia, e pela competência da Justiça Federal nas investigações envolvendo bets sediadas no exterior.
E não é só penal. A edição traz ainda a legitimidade passiva do credor fiduciário da incorporação imobiliária, a abusividade das cláusulas de associação de proteção veicular, o dever de colação de bens transferidos por escritura de compra e venda sem prova de pagamento, e a exigência de identificação por URL para responsabilizar provedores de aplicação sob o art. 19 do Marco Civil da Internet.
Baixe o informativo completo e leia cada tese na íntegra: https://abre.ai/uJBt
Aqui no blog, você não lê só a ementa. A seguir, eu vou destrinchar julgado por julgado: o contexto, o que o STJ decidiu, os fundamentos da decisão e o que mais importa. É a jurisprudência que cai na prova e que muda a peça que você vai redigir amanhã.
Se você estuda para carreiras jurídicas ou atua na prática criminal, salve este artigo. Aqui, jurisprudência não fica na ementa: vira ferramenta de trabalho.
Até a próxima!
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Erro na contagem de votos. Erro no procedimento de julgamento. Rediscussão em embargos de declaração. Possibilidade. Caso concreto. Proposta de recontagem dos votos proferidos no julgamento dos Temas repetitivos 65, 66 e 67. Embargos de declaração julgados em 2010 pela Primeira Seção. Acórdãos transitados em julgado. Impossibilidade de rediscussão. (Pet 17.904-RJ, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Rel. para Acórdão Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Primeira Seção, por maioria, julgado em 20/8/2026, DJEN 3/9/2026)
Resumo: A questão submetida à Primeira Seção do STJ dizia respeito à possibilidade de recontagem dos votos proferidos em julgamento ocorrido em 2010, quando a Seção apreciou os embargos de declaração opostos contra o acórdão que fixou as teses dos Temas repetitivos 65, 66 e 67. A proposta não pretendia rediscutir a controvérsia jurídica de fundo, mas corrigir o alegado erro na proclamação do resultado - especificamente a totalização dos votos, atribuída ao Presidente do colegiado na forma do art. 556 do CPC/1973 então vigente. O argumento central era o de que os embargos de declaração, por terem finalidade aclarativa, não poderiam servir de veículo para rediscutir qual das posições divergentes havia prevalecido, de modo que o erro na contagem seria um vício procedimental externo à fundamentação, insuscetível de saneamento por essa via e, ao mesmo tempo, apto a justificar uma revisão posterior. O STJ rejeitou a proposta. Reconheceu que a jurisprudência é tranquila no sentido de que erros no procedimento de julgamento, inclusive o erro na proclamação do resultado, podem ser discutidos em embargos de declaração, citando precedentes da Terceira e da Primeira Turmas. Contudo, no caso concreto, a Primeira Seção já havia rediscutido a contagem de votos em 2010, quando do julgamento dos embargos de declaração, ocasião em que, examinando o conteúdo efetivo dos votos proferidos, concluiu por rejeitá-los. Assim, a discussão ora proposta já havia sido travada e solucionada naquele momento, estando os acórdãos transitados em julgado. O fundamento decisório é preciso: certa ou errada, aquela foi a decisão tomada à época, e não cabe à composição atual do colegiado refazer o trabalho do então Presidente, que proclamou o resultado, nem o da composição que julgou os embargos.
Produção antecipada de provas. Cabimento de apelação contra sentença extintiva por ausência de interesse processual. Inviabilidade de prova. Recorribilidade. Direito à prova. Contraditório e ampla defesa. (REsp 2.291.242-MG, Rel. Ministro João Otávio de Noronha, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 29/9/2026, DJEN 1/10/2026)
Resumo: A controvérsia consistia em saber se é cabível apelação contra sentença que, ao indeferir integralmente a petição inicial por ausência de interesse processual, inviabiliza por completo a produção da prova na ação de produção antecipada de provas. No caso concreto, a autora pleiteou perícia para avaliar desvalorização imobiliária e delimitação de imóvel em relação à zona de autossalvamento, com a finalidade de autocomposição ou esclarecimento prévio dos fatos para eventual demanda futura. O juízo de primeiro grau extinguiu o processo sem resolução do mérito, com base no art. 485, VI, do CPC, por ausência de interesse processual. O tribunal de origem não conheceu da apelação, sustentando que o indeferimento da inicial por falta de interesse de agir não se enquadra na exceção do art. 382, § 4º, do CPC, que prevê a recorribilidade apenas quando a decisão indeferir totalmente a produção da prova. A Quarta Turma deu provimento ao recurso e afastou essa distinção. O fundamento é que a interpretação do art. 382, § 4º, não deve se limitar à literalidade do dispositivo quando dessa leitura resultar supressão do contraditório, da ampla defesa ou do próprio direito à prova. A jurisprudência consolidada da Terceira e da Quarta Turmas firmou que a limitação recursal do rito da produção antecipada não impede a impugnação de decisões que versem sobre os próprios requisitos de admissibilidade da ação probatória autônoma ou que, em termos práticos, inviabilizem a produção da prova requerida. O ponto decisivo foi a constatação de que, embora a sentença estivesse formalmente fundada na ausência de interesse processual, sua consequência concreta foi impedir integralmente a obtenção da prova - e, mais que isso, negar a própria admissibilidade da tutela probatória autônoma. Nessa perspectiva, a controvérsia recursal não se limita ao exame do pedido probatório em si, mas alcança os pressupostos de cabimento da ação, hipótese em que a recorribilidade é admitida em atenção ao contraditório, à ampla defesa e ao direito à prova.
DIREITO CIVIL / DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Contrato de promessa de compra e venda. Atraso na entrega de imóvel. Agente financeiro em sentido estrito. Falta de legitimidade passiva do credor fiduciário da obra. (EAREsp 2.422.743-BA, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Segunda Seção, por unanimidade, julgado em 3/9/2026, DJEN 11/9/2026)
Resumo: A controvérsia levada à Segunda Seção girava em torno do alcance do art. 31-A, § 12, da Lei n. 4.591/1964 diante das regras do Código de Defesa do Consumidor sobre responsabilidade solidária dos integrantes da cadeia de consumo. O cenário fático era o de um banco que, ao financiar a incorporação imobiliária, celebrou com a construtora contratos de garantia hipotecária e cessão fiduciária de recebíveis, nos quais previu a fiscalização da obra e vinculou a liberação das parcelas do empréstimo à evolução do empreendimento. A Terceira Turma e o tribunal de origem haviam concluído que essa ingerência - fiscalizar a aplicação dos recursos e condicionar o desembolso ao cronograma físico - extrapolava a figura do mero financiador, convertendo o banco em agente executor e fiscalizador apto a responder solidariamente pelo atraso na entrega das unidades. A Quarta Turma, no paradigma representado pelo AgInt no AgInt no REsp 1.875.510/SP, sustentava o oposto: a cessão fiduciária de recebíveis não transmuda a natureza da atuação do financiador em parceiro comercial ou gestor da obra, de modo que o credor fiduciário não tem legitimidade para figurar no polo passivo. A Segunda Seção resolveu a divergência em favor da orientação da Quarta Turma e fixou duas teses: o agente financeiro em sentido estrito que atua como credor fiduciário da incorporação não possui legitimidade passiva nas ações movidas por adquirentes por vício ou atraso na obra; e a mera fiscalização das obras, decorrente da previsão contratual que vincula a liberação do empréstimo à evolução do empreendimento, não permite presumir que o banco age como executor nem assumir responsabilidade solidária. O raciocínio decisório apoiou-se em três pilares: a leitura literal do § 12 do art. 31-A, que expressamente afasta a transferência de obrigações do incorporador ou construtor ao credor; a regra do art. 265 do Código Civil, segundo a qual a solidariedade não se presume e decorre da lei ou da vontade das partes; e a Súmula Vinculante 10/STF, que impede órgão fracionário de afastar a incidência de norma sem declaração de inconstitucionalidade pela maioria absoluta do órgão especial. O colegiado destacou ainda que a legitimidade ad causam se afere in status assertionis, exigindo que os fatos narrados na inicial, enquadrados pela lei em tese, permitam deduzir a existência de relação jurídica entre as partes - o que não ocorria na hipótese.
DIREITO CIVIL
Inventário. Colação de bens. Herdeiros por representação. Imóvel transferido a netos por escritura pública de compra e venda. Negócio jurídico formalmente oneroso e materialmente gratuito. Doação indireta. Necessidade de colação. Dispensa apenas por declaração expressa do doador. Princípio da igualdade sucessória. (REsp 2.199.958-MG, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 31/8/2026, DJEN 4/9/2026)
Resumo: O recurso discutiu se os netos da autora da herança, herdeiros por representação de sua mãe pré-morta, deveriam proceder à colação dos bens recebidos, inclusive daquele transferido mediante escritura pública de compra e venda. A Quarta Turma assentou, em primeiro lugar, que a colação é dever imposto aos descendentes que concorrem à herança, ainda que na condição de representantes de herdeiro pré-morto, nos termos do art. 2.002 do Código Civil, com o propósito de preservar a igualdade entre os sucessores e evitar que liberalidades do autor da herança gerem vantagem indevida a determinado ramo familiar. Os herdeiros por representação sujeitam-se às mesmas obrigações do representado, inclusive quanto à colação de bens recebidos por doação ou testamento quando tais disposições incidirem sobre a legítima. Em segundo lugar, e este é o ponto central do julgado, afirmou que a dispensa da colação somente se efetiva mediante manifestação expressa e inequívoca do doador de que a liberalidade ocorre à conta da parte disponível do patrimônio, seja no testamento, seja na escritura de doação - não bastando a simples existência de disposição testamentária, que por si só não afasta o dever de colação. Quanto ao imóvel formalmente transferido por compra e venda ao neto e curador da filha interditada, o colegiado aplicou o princípio de que a qualificação do negócio jurídico atende à sua substância e não à denominação conferida pelas partes. Ausente prova de contraprestação efetiva ou de pagamento do preço, impõe-se reconhecer a liberalidade subjacente à operação, caracterizando doação indireta sujeita à colação, sendo irrelevante a roupagem jurídica adotada. O fundamento decisório é preciso: o princípio da igualdade sucessória prevalece sobre a forma do ato. Assim, os netos devem proceder à colação dos bens recebidos, incumbindo ao inventariante promover a avaliação e a inclusão dos respectivos valores no monte partilhável, assegurando a observância da legítima e a igualdade entre os coerdeiros.
Seguro de responsabilidade civil. Apólice com coberturas autônomas e limites próprios. Condenação por danos morais e danos corporais. Combinação de coberturas. Inviabilidade. (REsp 2.087.812-MG, Rel. Ministro Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 12/8/2026, DJEN 17/8/2026)
Resumo: O recurso discutiu se, na vigência de contrato de seguro de responsabilidade civil com coberturas autônomas e limites próprios, seria possível utilizar a cobertura de danos corporais para satisfazer indenização por danos morais. A apólice previa cobertura específica para danos morais, com limite próprio e distinto daquele estipulado para danos corporais, mas o acórdão recorrido havia mantido condenação que, na prática, admitia a utilização da cobertura de danos corporais para suportar o dano moral, sob o argumento de que este decorreria do mesmo evento lesivo. A Quarta Turma reformou essa compreensão. O fundamento parte dos arts. 757 e 760 do Código Civil: o segurador garante interesse legítimo do segurado contra riscos predeterminados, e a apólice deve conter a indicação precisa dos riscos assumidos, da vigência e, sobretudo, dos limites da garantia. Da conjugação desses dispositivos extrai-se o princípio elementar de que a obrigação da seguradora é estritamente vinculada aos riscos expressamente contratados e aos respectivos limites máximos de indenização, entendimento sintetizado na Súmula 537/STJ. O colegiado destacou que a distinção entre dano corporal e dano moral não é meramente conceitual, mas estrutural do ponto de vista do risco assumido: o segurado pode contratar, nos valores que lhe convierem, coberturas para dano material, corporal e moral, sem qualquer comunicação entre elas, porque são garantias autônomas e independentes. Admitir a utilização da cobertura de danos corporais para complementar ou substituir a específica de danos morais configura verdadeira combinação indevida de coberturas, em afronta direta aos arts. 757 e 760 do Código Civil, além de comprometer o equilíbrio técnico-atuarial do contrato. O acórdão foi além e enfrentou o argumento da solidariedade: ainda que reconhecida a solidariedade entre segurado e seguradora perante a vítima, ela não tem o condão de afastar a delimitação contratual do risco nem de impor à seguradora obrigação superior à que assumiu com o recebimento do prêmio correspondente. Em última análise, tratar-se-ia de impor risco não contratado e não precificado, incompatível com a lógica do mutualismo que informa o sistema securitário.
DIREITO CIVIL / DIREITO DIGITAL
YouTube. Conteúdo gerado por terceiro. Ofensa contra a honra. Remoção de conteúdo. Marco Civil da Internet. Art. 19 da Lei n. 12.965/2014. Ordem judicial específica. Necessidade de identificação clara e precisa do conteúdo apontado como infringente. Indicação de canal ou página inteira. Insuficiência. URL ou elemento técnico equivalente. Responsabilidade civil do provedor. Inaplicabilidade da teoria do risco. Ausência de responsabilização pela mera disponibilização da plataforma. (REsp 1.775.540-RJ, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 31/8/2026, DJEN 3/9/2026)
Resumo: A controvérsia consistia em definir se, para fins de responsabilização de provedor de aplicações e imposição de obrigação de remoção de conteúdo, a ordem judicial deve indicar especificamente as URLs correspondentes aos conteúdos reputados ofensivos, nos termos do art. 19 da Lei n. 12.965/2014. O tribunal de origem havia entendido que a lei não exigiria menção expressa à URL do vídeo, bastando a indicação do conteúdo do material. A Quarta Turma afastou essa leitura. O art. 19 do Marco Civil condiciona a responsabilização civil do provedor por conteúdo de terceiro ao descumprimento de ordem judicial específica que determine a indisponibilização do material apontado como infringente, e o § 1º exige, sob pena de nulidade, identificação clara e específica que permita a localização inequívoca do conteúdo. O fundamento decisório é estrutural: a exigência de individualização não é formalismo, mas garantia de que o provedor localize de modo preciso o material a ser removido, sem lhe transferir o ônus de monitorar, selecionar e valorar, por conta própria, conteúdos publicados por terceiros. A indicação genérica de canal, página ou conjunto amplo de publicações não equivale à identificação inequívoca do conteúdo específico. Ordem judicial que não individualiza os materiais impõe ao provedor juízo próprio sobre a ilicitude de conteúdos variados, com risco de remoção excessiva, supressão de manifestações lícitas e indevida transferência da atividade jurisdicional ao particular. O colegiado foi categórico ao afirmar que o regime do art. 19 não autoriza a responsabilização pela simples disponibilização da plataforma nem pela mera existência de conteúdo de terceiro, e que a responsabilização não pode ser mantida com fundamento na teoria do risco da atividade nem em ordem genérica desacompanhada da adequada individualização dos vídeos reputados ofensivos. Em plataformas de vídeo, o requisito é atendido pela indicação da URL específica ou de elemento técnico equivalente que permita a localização precisa do material.
DIREITO DO CONSUMIDOR
Proteção patrimonial mutualista. Associação de proteção veicular. Código de Defesa do Consumidor. Incidência. Cláusulas restritivas de permanência no local do sinistro e de comunicação em prazo peremptório. Abusividade. (REsp 2.279.683-RS, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 6/10/2026, DJEN 9/10/2026)
Resumo: O recurso discutiu a validade de duas cláusulas previstas no regimento interno de associação de proteção veicular: a perda do direito ao benefício em caso de evasão do local do sinistro e a obrigatoriedade de comunicação do acidente no prazo de trinta minutos, sob pena de perda da cobertura. A controvérsia exigia, preliminarmente, definir o regime jurídico aplicável. A Terceira Turma assentou que não se trata de contrato de seguro típico, mas de operação de proteção patrimonial mutualista, recentemente disciplinada pela Lei Complementar n. 213/2025, que alterou o Decreto-Lei n. 73/1966. Reconheceu que não é possível transpor indistintamente as regras dos seguros tradicionais nem as do Código Civil nem as da Lei n. 15.040/2024, mas afirmou a incidência do Código de Defesa do Consumidor com base na jurisprudência consolidada de que a relação de consumo se caracteriza pelo objeto contratado, sendo irrelevante a natureza jurídica da entidade prestadora, ainda que sem fins lucrativos. A decisão foi além e destacou que, com a LC n. 213/2025, essas operações passaram a se submeter também às regras da Susep e à regulamentação do CNSP, em especial a Resolução CNSP n. 491/2026, cujo art. 48 impõe expressamente a observância do CDC e dos princípios da transparência, diligência, lealdade, probidade e boa-fé objetiva. No mérito, o colegiado construiu um critério dogmático preciso: cláusulas que afastam o direito à indenização são abusivas quando, embora formalmente rotuladas como exclusão de cobertura, impedem a realização da finalidade essencial do contrato, violam a boa-fé objetiva, surpreendem o consumidor ou impõem restrição desproporcional e incompatível com a legítima expectativa de cobertura; já as cláusulas que apenas delimitam, de forma clara e razoável, os riscos efetivamente assumidos são válidas. Aplicando o critério ao caso e ao art. 51, IV e § 1º, do CDC, considerou abusivas ambas as exigências. Quanto à permanência no local, enumerou as circunstâncias que legitimamente justificam a saída do associado - risco à integridade física, ameaça de violência, necessidade de atendimento médico, determinação de autoridade policial, desobstrução da via, impossibilidade material de aguardar - e registrou que a permanência pode, em muitos casos, elevar o risco ao próprio segurado. Quanto ao prazo de trinta minutos, afirmou que o dever do associado é comunicar o sinistro em prazo razoável, sem demora injustificada, sendo vedado, pelo art. 22 da Resolução CNSP n. 491/2026, fixar prazo peremptório cuja inobservância acarrete perda integral da garantia. O fundamento decisório repousa na proporcionalidade e na boa-fé objetiva: a perda integral da cobertura por mero descumprimento formal, sem nexo causal entre a conduta do associado e o sinistro e sem prejuízo à regulação do evento, impõe consequência patrimonial gravíssima e desproporcional.
DIREITO PENAL
Adulteração de medidor de energia elétrica. Induzimento da concessionária a erro. Desclassificação do furto qualificado mediante fraude para estelionato. Inviabilidade. (AREsp 3.204.574-SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 19/8/2026, DJEN 31/8/2026)
Resumo: A controvérsia consistia em saber se a adulteração clandestina do medidor de energia elétrica, mascarando o consumo real em prestação regular de serviço, configura furto qualificado mediante fraude (art. 155, § 4º, II, c/c § 3º, do CP) ou estelionato (art. 171 do CP). No caso, o acusado, administrador de estabelecimento empresarial, determinou a terceiro a instalação de relé temporizador no medidor, impedindo o registro do consumo real e causando prejuízo à concessionária. O tribunal estadual havia enquadrado a conduta como furto qualificado mediante fraude, sob o fundamento de que a energia é entregue de forma não espontânea. A Quinta Turma reformou o enquadramento. O fundamento é a distinção dogmática precisa entre os dois tipos: no furto qualificado mediante fraude, a fraude é meio para neutralizar a vigilância e subtrair a coisa sem ciência ou consentimento da vítima; no estelionato, o ardil induz o ofendido em erro e o leva a, voluntariamente, transferir o bem ou a vantagem ao agente. Em prestação de serviço lícito com contraprestação, a alteração da medição não subtrai energia — induz a concessionária em erro sobre a exata medida do objeto da cobrança, o que caracteriza estelionato. O colegiado foi explícito ao afastar a equiparação com o "gato": não se trata de inversão da posse e neutralização da vigilância, mas de serviço regularmente fornecido, no qual a vantagem indevida é obtida por erro provocado pelo ajuste clandestino do medidor. Ausentes, portanto, a subtração e a inversão da posse exigidas pelo tipo do art. 155. O acórdão invocou precedente da própria Quinta Turma (HC 67.829/SP) no mesmo sentido.
Estupro de vulnerável. Atos de libidinagem. Adulto incapaz de resistir. Desclassificação para importunação sexual. Inviabilidade. (Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Og Fernandes, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 4/8/2026, DJEN 14/8/2026)
Resumo: A controvérsia consistia em determinar se é classificável como estupro de vulnerável (art. 217-A do CP) a prática de atos de libidinagem contra vítima adulta incapaz de oferecer resistência. A Sexta Turma assentou que a ratio decidendi do Tema 1121 do STJ é perfeitamente aplicável ao caso, pois os motivos que levaram o Tribunal a solucionar os paradigmas daquele tema se aplicam integralmente quando a vítima é considerada impossibilitada de externar sua vontade, por exemplo por estar inconsciente. O fundamento está na própria estrutura do tipo: na figura do art. 217-A, pune-se simplesmente a prática de atos de libidinagem com alguém menor de quatorze anos, ou com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. A ausência de capacidade de resistência de um adulto atrai exatamente a mesma proteção legal conferida ao menor de 14 anos - e é essa a tese fixada no destaque do julgado. A Turma afastou a desclassificação para importunação sexual (art. 215-A do CP). O raciocínio é preciso: o crime de importunação sexual exige que a ação ocorra sem a concordância da vítima, pressupondo, portanto, uma vítima capaz de eventualmente consentir e, com isso, excluir a tipicidade da conduta; tratando-se de pessoa impossibilitada de escolher e consentir, a desclassificação é inviável. No caso concreto, o crime foi cometido por técnico de enfermagem no exercício de sua profissão, durante o atendimento da vítima dentro de uma ambulância, que passava por crise convulsiva e estava sob o efeito de medicamentos - circunstâncias que reforçam tanto a vulnerabilidade quanto a posição de garantidor e o dever de cuidado do agente.
DIREITO CONSTITUCIONAL / DIREITO PROCESSUAL PENAL / DIREITO PENAL
Jogo de azar, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Investigação perante a Justiça Estadual. Transnacionalidade. Bet situada fora do país. Possibilidade de crime federal. Remessa à Justiça Federal para aferição de sua eventual competência. (AgRg no RHC 227.970-SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 17/3/2026, DJEN 24/3/2026)
Resumo: A controvérsia consistia em determinar se cabe à Justiça Estadual afastar, por ato próprio, a competência da Justiça Federal no âmbito de investigação sobre associação criminosa, lavagem de dinheiro e contravenção de jogo de azar relacionada a empresa de apostas sediada fora do país. A Quinta Turma assentou que, nos termos da jurisprudência do STJ, a competência jurisdicional se afere in status assertionis, ou seja, com base nos fatos delineados na hipótese investigativa. Registrou que a contravenção de jogo de azar é de competência estadual, já que o art. 109, IV, da Constituição exclui expressamente as contravenções penais da competência federal. Contudo, afastou a equiparação simplória entre as bets - modalidade lotérica de aposta de quota fixa disciplinada pela Lei n. 14.790/2023 - e os jogos de azar, razão pela qual sua exploração irregular pode configurar outros crimes, cuja competência pode ser federal. O ponto decisivo foi a constatação, em exame preliminar, da transnacionalidade, já que a pessoa jurídica operadora das apostas é sediada fora do país. Diante disso, concluiu-se que, embora não se verifique de plano a competência federal para investigar a associação criminosa, a lavagem e o jogo de azar, é inevitável constatar a possível conexão dessas condutas com crimes da competência da Justiça Federal. Por isso, impõe-se a remessa da investigação à Justiça Federal, para que ela própria avalie a eventual existência de crime federal que atraia a competência dos demais por conexão. O fundamento é categórico: compete à Justiça Federal decidir sobre sua própria competência, inclusive quanto aos crimes conexos, não cabendo à Justiça Estadual, por ato unilateral, afastar a incidência das Súmulas 122 e 150 do STJ quando há indícios de crimes federais e apurações correlatas.
DIREITO PROCESSUAL PENAL
Tráfico de drogas. Ingresso domiciliar sem mandado. Situação que não demanda urgente intervenção policial. Ausência de fundadas razões. Ilegalidade. (AgRg no HC 761.669-RS, Rel. Ministro Rogerio Schietti, Sexta Turma, por maioria, julgado em 20/5/2026, DJEN 26/5/2026)
Resumo: O caso discutiu a legitimidade do procedimento policial que, após ingressar em residência sem autorização judicial, encontrou e apreendeu drogas. A Sexta Turma, por maioria, reconheceu a ilegalidade do ingresso. O fundamento parte do Tema 280 do STF, fixado no julgamento do RE 603.616/RO: a entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo no período noturno, quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas a posteriori, que indiquem situação de flagrante delito no interior da casa, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente e de nulidade dos atos praticados. O colegiado detalhou a exigência: as fundadas razões quanto à situação flagrancial devem ser anteriores ao ingresso, ainda que exteriorizadas posteriormente no processo, não se admitindo que a mera constatação de flagrância posterior justifique a medida. O acórdão construiu um raciocínio de coerência institucional: se o próprio juiz só pode determinar busca e apreensão durante o dia e mediante decisão fundamentada, após análise prévia dos requisitos, não é razoável conferir ao servidor de segurança pública discricionariedade total para, com base em mera capacidade intuitiva, ingressar de forma forçada na residência de alguém e verificar se há substância entorpecente. Registrou que a ausência de justificativas e de elementos seguros pode esvaziar o próprio direito à privacidade e à inviolabilidade do domicílio. No caso concreto, a dinâmica fática revelou a ausência de fundadas razões: a acusada havia sido presa em flagrante no dia anterior, os policiais continuaram a monitorar o imóvel, mas não constataram nenhuma movimentação suspeita; depois, abordaram a moradora em praça pública, que teria supostamente confessado informalmente ter drogas em casa e convidado os agentes a ingressar. A Turma considerou inverossímil essa versão e destacou dois pontos: a opção por realizar campana em vez de ingressar imediatamente é indicativo de que os próprios agentes não constataram fundadas razões; e o tempo decorrido até a invasão revela a inexistência de urgência que inviabilizasse o pedido prévio de mandado, já que não havia indicativo concreto de risco iminente de ocultação das drogas - cuja existência nem sequer havia sido confirmada. Também não houve comprovação do consentimento livre e voluntário da moradora. A consequência foi a declaração de ilicitude da prova e de todos os atos dela decorrentes.
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Referências:
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Informativo de Jurisprudências - Edição 907. Disponível em < https://processo.stj.jus.br/SCON/GetPDFINFJ?edicao=0907 >
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